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Segredo Dos Seus Olhos Critical Thinking

O argentino Juan José Campanella (de O Filho da Noiva e Clube da Lua) conduz com a habitual habilidade narrativa este O Segredo dos seus Olhos, concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A história se passa em dois tempos. Em 1974, uma moça recém-casada é estuprada e morta por um desconhecido. Um oficial de justiça, Benjamim Espósito (Ricardo Darín), se interessa pelo crime; faz dele uma obsessão e tenta encontrar o culpado. Dando um salto de 25 anos, encontramos o mesmo Espósito, já aposentado, escrevendo nas horas vagas um romance sobre o caso.

Acontece que o filme não trata apenas da investigação. É, ou deseja ser, muitas coisas ao mesmo tempo, como um canivete suíço. Embute na trama um traço tragicômico através da figura de Sandoval (Guillermo Francella), o auxiliar alcoólatra de Espósito. Também quer ser uma história de amor inconcluso entre o oficial de justiça e a juíza Irene (Soledad Villamil). E não deixa passar em branco o período da ditadura militar argentina e suas repercussões sobre a vida dos cidadãos comuns. Como nos tais canivetes, também no filme algumas lâminas funcionam melhor do que outras.

Mas não é nem a diversidade de temas que atravanca O Segredo dos seus Olhos, mas a maneira como Campanella costuma narrar. Como de hábito, seus personagens falam demais, e o tempo todo. Imagina-se que o roteiro publicado deste filme de 129 minutos teria umas quinhentas páginas, tal a quantidade de diálogos longos e, diga-se, muitas vezes inteligentes. Mas há um excesso retórico. Apesar da verbosidade, o ambiente de tensão é conseguido, muitas vezes, pelo tratamento fotográfico do craque Félix Monti (que andou trabalhando no Brasil). A linguagem cinematográfica é que soa às vezes meio quadrada, dando um ar retrô ao conjunto. Campanella chega até a ironizar a si mesmo, quando Espósito apresenta as provas de seu romance a Irene e esta diz que tudo parece meio antigo, cheio de clichês, com mãos encostadas dos lados opostos do vidro do trem à guisa de despedida, a mulher correndo rente aos trilhos e dando adeus, etc. O que leva Espósito a retrucar: “Mas não foi assim mesmo que ocorreu?”

Acontece que, na exata metade do filme, assistimos a um espetacular plano-sequência, com a câmera flutuando sobre um estádio de futebol onde talvez esteja o criminoso, depois localizando os protagonistas na torcida e fechando com uma cena de perseguição de tirar o fôlego. Nesses poucos minutos, o filme sai de sua rotina visual e cresce demais. O resto não esta à altura desse solo inspirado. Mas permanecemos com essas imagens na cabeça.

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O Segredo dos Seus Olhos
El Secreto de Sus Ojos
Pôster promocional
 Argentina/Espanha
2009 •  cor •  127 min 
DireçãoJuan José Campanella
ProduçãoMariela Besuievski
Juan José Campanella
Carolina Urbieta
RoteiroEduardo Sacheri
Juan José Campanella
Baseado emLa Pregunta de Sus Ojos, de Eduardo Sacheri
ElencoRicardo Darín
Soledad Villamil
Pablo Rago
Javier Godino
Guillermo Francella
Gênerodrama
policial
MúsicaFederico Jusid
Emilio Kauderer
Direção de arteMarcelo Pont Vergés
Direção de fotografiaFélix Monti
FigurinoCecilia Monti
EdiçãoJuan José Campanella
Companhia(s) produtora(s)Tornasol Films
Haddock Films
100 Bares
DistribuiçãoDistribution Company
Lançamento13 de agosto de 2009
Idiomaespanhol
Site oficial
Página no IMDb (em inglês)

O Segredo dos Seus Olhos[1][2] (em espanhol: El Secreto de Sus Ojos) é um filmeargentino de 2009, dirigido por Juan José Campanella e baseado no livroLa Pregunta de sus Ojos, de Eduardo Sacheri.[3]

Foi o segundo filme latino-americano a receber o Oscar de melhor filme estrangeiro. O primeiro foi o também argentino La historia oficial.[4]

Sinopse[editar | editar código-fonte]

É 1999. Benjamín Espósito é um ex-servidor da justiça penal argentina. Recém-aposentado, procura aproveitar o tempo livre para escrever um livro. Inspira-se em um caso real, ocorrido há 25 anos e que sempre lhe comoveu: o brutal estupro seguido de assassinato de uma bela jovem, Liliana Colotto.

Na época, Espósito aceitou cuidar do caso a contragosto, uma vez que ele seria da alçada de outra seção. Ao deparar-se com o estado do cadáver, todavia, passou a nutrir certa obsessão para esclarecê-lo. É com fúria que reage ao notar que os homens presos pelo crime são humildes e inocentes operários que foram torturados para confessar. Vendo isso, esmurra, em pleno saguão do Judiciário, o servidor que apontara os supostos criminosos, Romano - o mesmo que tentara livrar-se do caso ao empurrá-lo para Espósito.

Determinado a encontrar o verdadeiro criminoso, Espósito visita o viúvo de Liliana, o jovem bancário Ricardo Morales. Ao examinar fotografias antigas do casal, nota em diferentes fotos um mesmo homem com olhar vidrado em Liliana. Identificado nas legendas como Isidoro Gómez, passa a ser tido por Espósito como culpado em potencial, uma vez que Liliana provavelmente conhecia seu agressor, já que não havia sinais de arrombamento em sua casa. Morales dá mais força às suspeitas ao descobrir que Gómez e Liliana foram namorados na infância de ambos, na pequena cidade de Chivilcoy. Espósito e seu assistente Pablo Sandoval iniciam então uma busca por Gómez, mas não conseguem localizá-lo. Para piorar, ao irem à Chivilcoy para vistoriarem a casa da mãe dele, têm sua conduta ilegal denunciada para o juiz da seção em que trabalham. Ainda assim, conseguem manter sigilosamente entre eles a correspondência que Gómez enviava à mãe, mas não conseguem decifrar possíveis paradeiros do homem nem os diferentes e misteriosos nomes que ele menciona nas cartas.

No entanto, o escândalo em que haviam se metido, e a falta de provas concretas contra Gómez fazem com que o caso seja arquivado. Espósito não desiste, encantado com os sentimentos de Morales pela falecida esposa, ao deparar-se casualmente com ele em uma estação de trem. Morales explica que vai para a estação todos os dias, esperançoso em um dia identificar Gómez, sabendo que ele deve morar no interior e trabalhar em Buenos Aires. Espósito e Sandoval conseguem convencer sua superiora, Irene Hastings, por quem Espósito nutre grande paixão - que é recíproca, mas impedida pelo compromisso desta com o noivo e, sobretudo, pela insegurança dele -, a reabrir irregularmente o caso.

Sandoval, com a ajuda de um amigo do bar onde costuma embebedar-se, consegue decifrar os nomes mencionados nas cartas de Gómez: são antigos jogadores do Racing, popular clube de futebol do país. Sandoval convence Espósito de que o suspeito deve ser um fanático pelo time e, como toda paixão, ele jamais deixaria de sê-lo. Passam a frequentar os jogos do Racing na expectativa de avistá-lo entre os espectadores, até conseguirem, na quinta tentativa, vê-lo em um jogo contra o Huracán, no estádio deste time. Gómez é capturado e interrogado - ilegalmente - por Espósito.

Hastings não concorda com a medida, mas muda de ideia ao notar o olhar bastante malicioso do jovem para o seu decote. Ela passa a fazer um jogo psicológico em que questiona a força e virilidade de Gómez, com o objetivo de atiçar o orgulho deste e fazê-lo confessar o crime, conseguindo com sucesso. Gómez, pelo crime, fica sujeito à prisão perpétua. A satisfação de Espósito e de Morales, todavia, dura pouco: algum tempo depois, o viúvo vê Gómez na televisão, como um guarda-costas da então presidente María Estela Martínez de Perón. Espósito e Hastings verificam que Gómez fora solto com o aval de Romano, e confrontam-no. Cinicamente, este explica que encontrou em Gómez um agente útil para o Estado para infiltrar-se na juventude rebelde e que não há nada que eles podem fazer.

Paralelamente, ambos - Espósito e Hastings - ficam próximos de consumarem os sentimentos que sentem um pelo outro, chegando a marcar um encontro para fugirem. Na noite marcada, todavia, ele é chamado pela polícia para socorrer Sandoval, em confusão de bar arrumada por nova embriaguez deste. Espósito leva para sua casa o amigo, deixando-o sozinho lá enquanto vai até a casa deste para chamar a esposa dele. Quando Espósito retorna à sua casa com ela, ambos deparam-se com o corpo metralhado de Sandoval. A tragédia interrompe os planos amorosos de Espósito e Hastings; concluindo que Romano estaria por trás do assassinato, ela o convence a passar uns tempos na província de Jujuy, onde ela tem parentes poderosos que o protegeriam.

A história retorna ao tempo onde iniciou-se, com Espósito preparando o livro e mostrando os esboços a Hastings. Ele resolve procurar novamente Morales, curioso para saber como a vida deste se encaminhou, e o encontra morando sozinho em uma área da zona rural dos arredores de Buenos Aires. Espósito custa a crer que este conseguiu tocar relativamente a vida, apesar da insistência deste de que vinte e cinco anos já seria tempo suficiente para isto. Espantado com a insistência de Morales para que esqueça o caso, Espósito continua a questionar se aquele homem tão apaixonado pela esposa não teria ido atrás de Gómez para uma vingança pessoal. De início, Morales reage indignado, pedindo para Espósito retirar-se de sua casa.

Após este explicar-lhe as circunstâncias em que Sandoval fora morto, tendo motivos para crer até que o amigo poderia ter, para protegê-lo, aceitado o destino - e de se lembrar que as últimas palavras que ouvira dele foram no sentido de que ambos pegariam novamente o assassino -, Morales confessa que nunca desistiu de punir o assassino. Esclarece que sabia que o criminoso, após ser posto em liberdade, iria atrás de Espósito, e passou a seguir o servidor em busca de Gómez. Até que um dia, conseguiu nocauteá-lo e prendê-lo no porta-malas do carro. Morales o teria conduzido até uma linha ferroviária, executando-o a tiros quando um trem passou, a fim de que os sons dos disparos fossem abafados. Teria enterrado-o por ali.

Espósito então despede-se de Morales. Mas algo na história não o convence; na época logo posterior ao assassinato da esposa, Morales enfatizara mais de uma vez a Espósito de que não desejava a morte de Gómez, e sim que este passasse anos e anos no vazio de uma prisão perpétua, até por ser esta a pena que as leis argentinas puniriam sua conduta. Escondido, ele volta à casa de Morales, e depara-se com este servindo comida a Gómez, aprisionado em uma cela caseira. Gómez implora a Espósito que ele peça que Morales ao menos converse com ele. Aparentemente, o estuprador, ao ser capturado, ficara aprisionado desde então na casa de Morales, que jamais lhe dirigira a palavra em todo aquele tempo. Morales confirma implicitamente a ideia, lembrando a Espósito que, pela lei, Gómez jamais deveria ter deixado a cadeia.

Embora assombrado com o estado de Gómez, Espósito resolve nada a fazer quanto a ele, e sim realizar um antigo sonho de sua vida, libertando-se de um velho medo - simbolizado por um trocadilho entre "temo" e "te amo". O filme encerra-se com ele e Hastings radiantes na sala desta, com ele finalmente prestes a declarar-se.

Elenco[editar | editar código-fonte]

Prêmios[editar | editar código-fonte]

Além de receber o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010[5], o filme venceu o Prêmio Goya de melhor filme do ano.[6]

Recepção da crítica[editar | editar código-fonte]

El Secreto de Sus Ojos tem ampla aclamação por parte da crítica especializada. Com tomatometer de 91% em base de 133 críticas, o Rotten Tomatoes publicou um consenso: “Imprevisível e rica de simbolismo, este mistério de assassinato argentino faz jus ao seu Oscar com um enredo cativante, direção assegurada de Juan José Campanella, e performances hipnotizantes de seu elenco”. Tem 93% de aprovação por parte da audiência, usada para calcular a recepção do público a partir de votos dos usuários do site.[7] Por comparação no Metacritic tem 81% de metascore em base de 34 avaliações profissionais.[8]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]